Ontem, dia 19 de março, completaram 10 meses da morte do meu pai. O tempo passa, mas não minha saudade, não meu aperto no coração, não a falta de ouvir sua voz, não a vontade de conversar com ele, não a dor que sinto...
Ele foi a minha base, meu chão, meu porto seguro, meu conselheiro, meu amigo, meu confidente, meu parceiro em várias traquinagens e brincadeiras, o pulso firme, o revelador das coisas boas e más do mundo, meu orientador e também desorientador, meu cozinheiro favorito, meu conselheiro, meu herói, meu ídolo.
Um homem sábio, que usava sua sabedoria no dia a dia, de uma forma a não se exibir, mas do jeito que aqueles mais atentos seriam capazes de perceber. E quantas lições ele mostrou.
A simplicidade era sua marca registrada, gostava de dizer "Eu vim ao mundo pelado, e agora eu tenho roupas, estou no lucro". Essa frase era para nos lembrar que o dinheiro não era tudo, existiam coisas mais importantes, e importantes foram seus filhos, eu e meu irmão Allan.
Meu pai era do tempo da palmatória, do famoso bolo, não hesitava de aplicar em nossas mãos abertas duas ou três com o outro lado da escova de tirar pelos do terno. Doía mais nele do que na gente, passada a dor a gente lembrava que tínhamos feito algo errado, mas estávamos bem grudados nele, apreciando a sua preocupação e agradecendo pela sua existência.
Com ele aprendi o real sentido da fome. Era criança e como tal me achava a única cocada preta do tabuleiro, gostava muito de fazer as coisas ao meu jeito. Até que um dia eu fui convidada a almoçar e como toda criança levada respondi que não estava com fome. Naquele dia eu descobriria o que era sentir fome. Meu pai proibiu que a moça responsável por mim, me desse qualquer tipo de comida. Quando a barriga fazia mais barulho que uma escola de samba, ele veio até a mim e me disse: - " isso que você está sentindo agora sim é fome, é a mesma sensação daquelas crianças que batem na nossa porta pedindo comida, na casa delas falta comida, o horário de comer, é o horário que alguém se digne a oferecer um alimento. Aqui em casa temos horário, temos comida sobrando, valorize o que você tem, e lembre sempre dos que não tem". Não esqueci da lição, procuro colocar no prato somente aquilo que dou conta de comer, e sei de fato que fome eu nunca passei.
Sou filha de um Francisco e coincidentemente, o seu Francisco tem dois filhos, dois grandes orgulhos dele, e dele nos orgulhamos muito. O tempo continuará passando, mas não tudo aquilo que ele nos ensinou, não o carinho e dedicação que ele sempre teve por nós, não o grande amor que ele sempre demonstrou ter por nós, talvez essa grande dedicação nos conforte e nos dê a falsa e gostosa sensação que ele ainda está aqui bem ao alcance dos meu dedos, e que basta um telefonema para ouvir a sua voz rouca a me dizer: Oi Té -(meu apelido colocado pelo meu irmão quando ele era bem pequeno e não conseguia falar meu nome completo e que até hoje na intimidade os dois me chamavam).
Saudades....


